​© 2017 - Ieda de Oliveira

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LIVROS / ESCREVER BERLIM (antologia)

Textos: Andrea Nunes | Antonio Salvador |  Caio Yurgel | Camila Gonzatto | Claudia Nina | Eunice Gutman | Felipe Franco Munhoz | Godofredo De Oliveira Neto | Henrique Rodrigues | João Guilhoto | Katia Gerlach | Krishna Monteiro | Ieda de Oliveira | Lucia Bettencourt | Luciana Rangel | Mariza Baur | Márcio Benjamin | Mauricio Vieira | Roberto Parmeggiani | Simone Paulino | Susana Fuentes
Organização: Leonardo Tonus
Conto: AUFERSTEHUNG (Ressurreição)

Editora: Nós
1ª edição: 2017

ISBN: 978-85-69020-16-5
Acabamento: Brochura

Páginas: 216
Formato: 14 x 21

Escrever Berlim dá continuidade ao projeto iniciado com Olhar Paris que, em 2016, se propunha a registrar a geografia sentimental praticada ou imaginada pelas escritoras e pelos escritores convidados do Printemps Littéraire Brésilen. No caso da antologia Escrever Berlim, ela surge alguns meses após o atentado de 19 de novembro de 2016, quando um caminhão invadiu um mercado de Natal na Breitscheidplatz. O livro é, portanto, um conjunto de palavras contra o ódio e a intolerância.

O livro tem organização de Leonardo Tonus, professor da Universidade de Sorbonne e curador do Printemps Littéraire Brésilien, e conta com ilustrações de capa de Jana Glatt Rozenbaumt e design da Bloco Gráfico. 

Trecho:

Johann...JOHann...JOHAnn...JOHANN....
Olhos confusos e empoeirados sob escombros. Hasso quase a meu lado parece não ter ouvido o chamado. Tento me mover aos poucos me arrastando em direção  a ele, que parece dormir indiferente a meu esforço. 

Apoio-me em torno de uma claridade frágil buscando reconhecimento do espaço. Percebo num flash de luz o que deveriam ser minhas mãos. Elas tremem, mas não sinto medo. Observo-as. Pele flácida em superfície seca onde veias se expõem  opulentas. Toco meu rosto. Pressinto um desconhecido. De onde essa barba imensa, essa falta de carne em superfície rugosa e irregular. Alguém habita meu corpo. 

Reajo e levanto pra enfrentar o inimigo. Minhas pernas, finas e frágeis, são dele. Tento arrancá-las e gritar pra assustá-lo, mas ele ignora e me arrasta pro chão.  Tenho quinze anos. Sei disso e sei também que sou músico. Meu Cello. Ele sabe disso. Onde está meu Cello? Hasso, acorda, cão imprestável! Faça esse intruso deixar meu corpo em paz. Hassoooooo! Acorda!